Notícias › 16/11/2016

Card. Hummes chama bispos da Amazônia a fazer propostas ao Papa

As atividades desta terça-feira, 15 de novembro, do II Encontro da Igreja Católica na Amazônia, em andamento em Belém, se iniciaram com a apresentação de um vídeo do Cardeal Cláudio Hummes, Presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia. abaixo, a íntegra da mensagem:

Caros Senhores Arcebispos, Bispos e demais participantes do II Encontro da Igreja Católica na Amazônia,

Não podendo estar presente neste importante Encontro, por conta do Consistório de Cardeais no Vaticano nesta mesma data, envio-lhes esta mensagem gravada. Foi com muito zelo e esperança que a nossa Comissão de Bispos para a Amazônia, em nome da CNBB, atendendo ao pedido do episcopado desta macrorregião, preparou este encontro. Não podendo estar presente, pedi a Dom Erwin Kräutler, secretário da comissão, para presidir o encontro. Assim, está entregue em boas mãos.

Aos bispos recentes e recém-chegados

Certamente, é muito oportuno este encontro. Encontrar-nos, já é para nós, bispos, um valor em si. No encontro nos comunicamos, convivemos, rezamos juntos, nos encorajamos uns aos outros e renovamos nosso espírito para continuar a missão, que Jesus Cristo nos confiou na Amazônia. Alguns dentre vocês são bispos recentes nesta região e assim o conhecimento mútuo é importante. As informações sobre a missão na Amazônia, as experiências dos mais antigos, valem muito para os mais novos. Criar amor ou renovar o amor pela Igreja missionária desta região, vencer o risco da acomodação, ter a coragem de suar a camisa e ser um bispo “em saída”, conviver com as ovelhas, arriscar, como diz o Papa Francisco, são essenciais para sentir alegria e felicidade em seu ministério.

Assim, o encontro nos renova e anima. Na verdade, é o Espírito Santo que nos reúne. É Jesus Cristo, o Bom Pastor, que quer nos encontrar, nos falar e nos encorajar.

Crise tem também uma dimensão religiosa e ética

Este encontro é também muito oportuno por conta da atual crise socioambiental e climática que o mundo atravessa, crise em que a Amazônia tem uma vocação particular e responsabilidades urgentes. Estão marcando este momento histórico da “nossa casa comum” a “Laudato si’” do Papa Francisco, a criação da REPAM, a COP21 de Paris que se fixou muito na eliminação do gás carbônico – o CO² – e agora recentemente o acordo de Kigali (Ruanda) para eliminar o pior dos gases, que provocam o aquecimento global, o gás usado em refrigeração (HFCs). Tanto o acordo de Paris como o de Kigali foram assinados por mais de 170 países. A crise do Planeta é grave e urgente. Em Paris, o ministro francês Fabius, que era da coordenação da COP21, resumiu bem a situação de urgência, dizendo: “Mais tarde, tarde demais!”. Não se pode adiar para mais tarde as decisões necessárias e as ações eficazes para frear o processo de aquecimento global e de degradação do Planeta. Caso contrário, as gerações futuras não terão mais à disposição um Planeta viável, saudável, bonito e sustentável. O prazo que os cientistas definiram é que tudo deverá acontecer ainda no século 21. Este contexto, diz o Papa, não pode deixar a Igreja indiferente ou ausente. Ela precisa se envolver, porque toda esta crise não tem apenas aspectos socioeconômicos, políticos, culturais, mas tem também uma dimensão religiosa e ética.

Disse o Papa: “A Amazônia é um teste decisivo, um banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileira”.

Bispos, tenham ousadia!

O Papa Francisco se propõe reformar a Igreja, para que ela se torne inteiramente missionária, misericordiosa, pobre e para os pobres, em todo o mundo. A Igreja na Amazônia é também interpelada e encorajada pelo Papa para fazer esta reforma. Ele diz, na Evangelii Gaudium, que é necessário “avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão” (n.25). Mais vezes o Papa disse que não devemos ter medo do novo. No Rio de Janeiro, quando se reuniu com os bispos brasileiros, falou da missão da Igreja na Amazônia e terminou dizendo: “Sobre isso, peço, por favor, para serem corajosos, para terem ousadia!” e depois, em particular, disse a mim e a outros que na Amazônia devemos saber “arriscar, porque se não arriscarmos já estamos errados”.

Os grandes centros urbanos da Amazônia e a proliferação dos neopentecostais

Há na Amazônia um acentuado processo de urbanização. Até mesmo, muitos indígenas migram para as áreas urbanas e assim nasceu o fenômeno do índio urbano. Como a Igreja lida com estes desafios? A Igreja é fortemente exigida pela realidade urbana na Amazônia, cidades crescentes, algumas já imensas, com grandes periferias pobres e abandonadas pelo poder público. Periferias onde, como sabemos, enormes contingentes de católicos migram para outras confissões religiosas, sobretudo (neo)pentecostais protestantes. Essa realidade urbana – muitas vezes caótica – exige novas formas de pastoral e de missão. Mas, em consequência, as comunidades do interior, as comunidades indígenas, ribeirinhas e outras, acabam muitas vezes tornando-se invisíveis, desatendidas e fragilizadas, por falta de pastores, de missionários/as, que convivam com elas. Corremos o risco forte de perder os frutos da obra evangelizadora de tantos missionários/as do passado, que se dedicaram e deram a vida para levar Jesus Cristo, em primeiro lugar, aos indígenas, mas também a toda a população que foi surgindo no interior desta floresta imensa. Hoje não basta um padre ir visitar de vez em quando estas comunidades na floresta e à beira dos rios.

Autonomia aos diáconos casados

Hoje, dizem até mesmo os sociólogos, se a Igreja Católica não quiser continuar a perder grande contingente de fiéis, precisa providenciar pastores que residam na comunidade, que sejam presença constante ali. Os pentecostais assim o fazem. O Papa Francisco, diante desta nossa carência de ministros ordenados locais, continua a sugerir que se ordenem mais diáconos casados permanentes, autóctones e também indígenas, que morem e convivam com a comunidade que lhes for confiada. A esses diáconos permanentes será preciso dar uma autonomia pastoral adequada para que possam realmente assumir a comunidade com responsabilidade própria e não sejam meros encarregados da parte do padre da paróquia local. É claro que precisará do padre para aqueles que são os sacramentos da vida quotidiana dos católicos, isto é, a eucaristia, a confissão sacramental e a unção dos enfermos.

Formação do clero indígena

Outro grande desafio é a inculturação da Igreja nas culturas locais. O Papa nos fala de uma Igreja com rosto amazônico. Mais complexa ainda é a inculturação nas culturas indígenas, que deverá ter também como uma de suas metas principais a formação de um clero indígena. No que tange à inculturação, temos ainda um longo caminho a fazer.

Este encontro pode também ser uma oportunidade para fazer propostas ao Santo Padre. Ele mesmo pede que os bispos no mundo lhe façam propostas, sem receio. Também, propostas para a CNBB, p.ex. no que diz respeito a uma descentralização maior, pois o Papa, no citado discurso do Rio de Janeiro, ao falar das Conferências Episcopais, sublinhou a unidade na diversidade, dizendo: “Para a Igreja no Brasil, não basta um líder nacional; é preciso uma rede de ‘testemunhos’ regionais, que falando a mesma linguagem, assegurem em todos os lugares, não a unanimidade, mas a verdadeira unidade na riqueza da diversidade… A Conferência Episcopal é justamente um espaço vital para permitir tal permuta de testemunhos … Faz falta, pois, uma progressiva valorização do elemento local e regional. Não é suficiente a burocracia central, mas é preciso fazer crescer a colegialidade e a solidariedade; será uma verdadeira riqueza para todos”.

Meus caros, termino augurando-lhes um frutuoso encontro. Agradeçamos a Deus que nos reuniu em seu Filho, Jesus Cristo! Peçamos a luz do Espírito Santo! E que Nossa Senhora de Nazaré acolha sob o seu manto esta vigorosa Igreja missionária na Amazônia! Obrigado pela atenção!

Cardeal Dom Cláudio Hummes

Por Rádio Vaticano