Caminhar num túnel escuro até encontrar uma explosão de luz para contemplar o céu. Assim como em vários prédios monumentais de Brasília, a Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida tem sua entrada por meio de uma rampa num nível diferente da via pública. A escolha do arquiteto para essa solução está intimamente ligada com o mistério da Salvação e a tradição que a Igreja possui desde suas primeiras comunidades.
Para entrar na Catedral de Brasília, o visitante percorre uma rampa escura para depois emergir na nave inundada de luz e cores, que imediatamente conduzem o olhar para o céu. Esse trajeto potencializa a experiência sensorial e espiritual ao entrar no templo. Em declive e escura, a galeria sugere uma travessia rumo ao transcendente, quando já no interior do templo se depara com a explosão de luz.

A intenção de Niemeyer
Em 1998, Oscar Niemeyer contou que não quis ter na Catedral um contraste entre exterior luminoso e interior em penumbra, dando a ideia de “penitência e de castigo”, segundo ele. “Preferi fazer o contrário, para que os fiéis, tendo percorrido a galeria obscura, experimentassem, ao entrar na nave, no contraste de luz e de cores, uma sensação de paz e de esperança”, escreveu.
Mesmo assim, o arquiteto tomou a referência das catedrais góticas para criar a atmosfera mística dada pela introdução da luz por meio dos vidros, como sinal da pureza espiritual. Desde 1990, aa luz que atravessa os vidros da Catedral contam com tons especiais dados pelos vitrais de Marianne Peretti.
Experiência mistagógica
Essa sensação de paz e esperança citada por Niemeyer tem, na ótica da Igreja, um sentido que leva ao mistério Pascal. O arquiteto Ronei Costa, especializado na arquitetura litúrgica, recorda que o cristianismo é uma religião que nasce da experiência da morte.
“Cristo passou pela morte, desceu à mansão dos mortos para, nas pessoas de Adão e Eva, resgatar a todos nós. Portanto, o movimento de descida faz parte do percurso escatológico de todo cristão”, explica.
Ele também cita o exemplo das primeiras comunidades, que se reuniam nas catacumbas, às escondidas dos judeus.
A arquiteta Rafaela Citron, reforça esse sentido pascal na arquitetura da Igreja Mãe de Brasília:
“A Catedral de Brasília propõe esse itinerário que desce, para em seguida o céu se revelar por meio dos magníficos vitrais que realçam essa magnitude celestial. Quem diz que a arquitetura da Catedral de Brasília não respeita a tradição, tendo por base apenas a arquitetura gótica e barroca, ignora que a tradição da Igreja Católica não está inscrita apenas entre os séculos XII e XVII”, pontua.
A experiência dos visitantes ao adentrarem a Catedral é nítida. Os olhos são elevados aos céus e o estupor que toma conta de todos favorece uma experiência com o sagrado.