Trechos da homilia do arcebispo de Brasília, cardeal Paulo Cezar Costa, na Missa do Crisma na última quinta-feira Santa, 2 de abril de 2026
Epifania do Povo de Deus
Nesta celebração, o arcebispo, com seus bispos auxiliares, o Presbitério ao redor, com a participação dos fiéis, tem-se uma verdadeira epifania do Povo de Deus, uma verdadeira manifestação do Povo de Deus, que é um povo sacerdotal, onde o sacerdócio ministerial está a serviço do sacerdócio comum dos fiéis.
O texto do Apocalipse proclamado (Ap 1,5-8) manifesta este povo sacerdotal: ‘A Jesus, que nos ama, que por seu sangue nos libertou dos nossos pecados e que fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai, a ele a glória e o poder, em eternidade’.
O povo que depende do Senhor
É a beleza da Igreja de Deus que celebramos, onde o Ministério Sacerdotal tem um papel fundamental, pois manifesta a dependência do corpo da cabeça, que é Cristo. O corpo não pode dar a si mesmo todos os bens de que necessita, mas deve esperá-lo do seu Senhor, Jesus Cristo. Isso é bonito. A Igreja deve sempre esperar, ela deve sempre viver do seu Senhor.
Se a Igreja fosse um povo que se desse a si mesmo tudo o que ela tinha necessidade, nós não viveríamos essa dependência bonita e eterna do Senhor. Não! Nós somos um povo que dependemos Dele. É Ele que vai santificando seu povo no dia-a-dia, é Ele que vai dar os bens de que seu povo necessita para viver.
Uma Igreja mistagógica
Na nossa amada arquidiocese, estamos buscando edificar uma Igreja mistagógica, sinodal e missionária. É claro que tudo isso em vista de sermos uma Igreja cada vez mais bonita, uma Igreja que vive bem, e por isso uma Igreja que vai se tornando evangelizadora, missionária, onde a evangelização, a missão estão no centro.
A mistagogia nos ensina que, com o mistério pessoal de Deus, se entra em relação pessoal. Chegou o tempo em que a Igreja deve ser aquela comunidade que ajuda os homens e mulheres do nosso tempo a fazerem uma experiência do mistério de Deus – experiência que dá sentido à vida, à existência, que ilumina as grandes decisões da vida e dá sentido ao viver e ao morrer.
Uma Igreja mistagógica conduz o homem de hoje a beber no poço de Cristo, onde a experiência da fé se torna encontro, companhia nas lutas e decepções da vida, nos pequenos e grandes projetos da vida, que ilumina e dá sentido ao viver. Por isso a mistagogia necessita estar no centro da vida do presbítero.
Discípulo nasce do Coração do Senhor
No Evangelho de São Marcos, no capítulo terceiro, dos versículos 13 a 19, onde se narra a constituição dos doze, surpreende-nos que a finalidade de toda essa cena que o evangelista narra seja para que os doze estejam com Ele. É aqui que se coloca o acento de toda a passagem, é este o centro da escolha da vontade de Jesus: o discípulo nasce do coração do Senhor. Não fomos nós que nos escolhemos, como também não foram os discípulos que se escolheram estar com o Senhor, mas o Senhor chamou cada um e foram constituídos para estar com o Senhor. Isso, na vida dos discípulos, se realizava na vida com Jesus, pelas vias, pelas estradas da Palestina, onde iam convivendo com Ele, experimentando o seu amor. Onde, através da vivência com Ele, experimentavam, tocavam o amor de Deus.
Estar com o Senhor
Para nós, essa experiência [de experimentar o amor de Deus] se dá através dos Sacramentos, principalmente a Eucaristia; através da oração; através da Lectio Divina; através de um retiro espiritual; através de tantos momentos fortes; através da caridade na vida do dia-a-dia, onde se toca a carne sofredora de Cristo no irmão pobre, no irmão necessitado, no irmão que necessita do nosso amor. O Senhor continua a se deixar encontrar, a se dar a nós.
A condição para que tenhamos o ministério presbiteral fecundo está no estar com Ele, no viver uma relação profunda de amor com Ele.
Dicotomia da vida do presbítero
Reconheço que a nossa vida de presbíteros é pesada, é exigente. Vivemos no mundo sem ser do mundo. A Presbyterorum Ordinis, número 2, afirma essa dicotomia na vida do presbítero – dicotomia aqui no bom sentido da palavra. Diz o texto:
Não poderiam ser ministros de Cristo se não fossem testemunhas e dispensadores duma vida diferente da terrena, e nem poderiam servir os homens se permanecessem alheios à sua vida e às suas situações.
Quer dizer: o presbítero é um homem que está no mundo, vive no mundo, mas é como Cristo, que estava no mundo, mas que era de Deus, era consagrado a Deus. Assim é a realidade que vive o presbítero: Ele participa da vida, da história, das alegrias e esperanças do seu povo. Mas ele é o homem de Deus.
“O seu próprio ministério exige, por um título especial, que não se conformem a este mundo; mas exige também que vivam neste mundo entre os homens e, como bons pastores, conheçam as suas ovelhas e procurem trazer aquelas que não pertencem a este redil, para que também elas ouçam a voz de Cristo e haja um só rebanho e um só pastor”.
Reconhecimento e gratidão
O nosso amado povo, meus queridos presbíteros, reconhecem a nossa doação, o vosso desgastar a vida com alegria, fazendo a diferença na vida das nossas paróquias, fazendo a diferença na vida das nossas comunidades. O vosso ministério comporta uma vida de sacrifício. Obrigado pela vossa doação alegre, bonita e generosa! Obrigado por estarem comigo desgastando a vida na nossa amada Arquidiocese, tornando nossa Igreja um pouquinho mais bonita, um pouco mais evangelizadora, um pouco mais missionária. Obrigado, de coração!