Artigos › 09/04/2019

O que não lhe contaram sobre esperar

Todo mundo sabe e todo mundo diz que esperar é difícil, que é um processo, que temos de ter paciência, pois, no final, tudo dá certo! E quando esperamos em Deus tudo vai bem! Isso tudo é verdade, é lindo e poético, romântico!

O que ninguém nos conta é que não sabemos esperar. Ninguém nos ensinou isso, ninguém mostrou como fazer. O que ninguém nos conta é que esperar nem sempre vai terminar no dia, no jeito e na forma que gostaríamos! O que ninguém conta é que esperar, mesmo em Deus, não tira a angústia de ver a vida passar e as coisas não serem resolvidas! Ninguém nos conta que, às vezes, precisamos esperar não porque Deus quer, mas porque as circunstâncias exigem. Ninguém nos conta que esperar revela as nossas reais motivações interiores.

Pronto! Fiz uma mexida aí dentro, né? Instalei um problema! Com isso você acha que tirei de você a beleza da espera? Creio que não! Eu lhe trouxe a realidade, para lhe dizer que tudo o que eu disse também é verdade, existe, faz parte. No entanto, não querer viver tudo isso, rebelar-se ou gritar para os quatro cantos que esperar enche a paciência não vai mudar sua condição, amigão. ESPERE!

As duas coisas que disse aí em cima, sobre o que lhe contam e o que que não lhe contam, formam um conjunto de contrários que fazem a coisa acontecer. Toda a problemática do que não lhe contam, toda a “desromantização” da espera faz você dar sentido a tudo o que lhe acontece. Pense comigo: se esperar fosse tão bom assim, que sacrifício teria? Que sentido teria? Que esforço teria? Moleza nós só temos quando acordamos; o resto do dia é sacrifício e força para nos mantermos acordados. Desconstruir a imagem redondinha e bonitinha da espera não a desvaloriza, ao contrário, devolve a ela a beleza que lhe é devida. A espera gera têmpera, fortalece as escolhas; e se esperamos, é porque queremos muito aquilo pelo qual estamos esperando!

Dar sentido resolve a dor da espera?

Viktor Frankl diz: “O sentido não é moldado pela mente, mas a mente pelo sentido. Em vez de criar um sentido, a mente tem de submeter-se a ele, uma vez encontrado”. Ou seja, eu não dou sentido a algo que vivo, porque o sentido não se molda. Eu encontro o sentido em meio a tudo isso! O mesmo Viktor afirma que adversidades e sofrimentos são inevitáveis ao longo da vida, e nem precisava ser ele para dizer isso, né? Minha avó passou a vida me avisando sobre isso, porém, temos uma necessidade tão grande de prazer, que esquecemos que o sofrimento faz parte, que a dor está aí e é ela quem forja nosso caráter nas adversidades.

É normal, no meio tempo dessa espera que parece nunca ter fim, surgirem os sentimentos de medo, inconstância e desesperança. A desesperança – Frakl diz – é o mesmo que um sofrimento sem propósito. Nesse caminho, se não buscarmos, a fundo, encontrar o sentido da espera, o porquê de estar doendo, acabamos desenvolvendo uma profunda desesperança no que virá, porque, para nós, aquilo está sendo em vão, é como se não houvesse um objetivo.

O que não nos contam sobre isso é que a dor não vai passar do dia para noite. Não é encontrando o sentido em meio a tudo isso que a espera vai deixar de reclamar suas dores, mas seremos capazes de a suportar à medida que, encontrando o sentido, deixarmos que ele seja nossa motivação para perseverarmos.

Deus nos deseja por inteiro

São José Maria Escrivá diz: “Faz-me santo, meu Deus, ainda que seja à paulada! Não quero ser o peso morto da Tua vontade. Quero corresponder, quero ser generoso”. Mas que espécie de querer é o meu? Entende? Percebe? Esperar é uma “pauladinha”, ainda que leve para santidade e não se consegue santidade dormindo o dia todo! Chega uma hora na vida, jovem mancebo, que é preciso acordar, firmar-se e entender que dói querer ser melhor, que “malhar” a alma deixa os “músculos espirituais” doloridos. Com o tempo, acostumamo-nos com aquela dor, e precisamos aumentar o peso dos aparelhos, se não, estagnamos no resultado. Deus nos quer por inteiro, e, nesse caminho de espera, todos os sofrimentos próprios nos levam para Ele!

No final da frase, São José Maria Escrivá diz: “Mas que espécie de querer é o meu?”. O YouCat, no parágrafo 342, diz: “O sentido de nossa vida está em unirmo-nos a Deus em amor, em corresponder aos sonhos de Deus. Devemos permitir a Deus “viver a sua vida em nós”, nosso querer deveria ser o de que Ele vivesse a vida d’Ele em nós, e então a espera seria uma forma de deixar que Ele trabalhasse os frutos d’Ele em nós! E os frutos da espera são aqueles que precisam ser, e são melhores do que pensamos, mesmo que não seja o que pensamos!

O que não lhe contam sobre isso? Que para ser inteiro para Deus precisamos nos ter nas mãos, não damos nada para ninguém que não seja nosso, a não ser que sejamos uns tremendos cara de pau! Eu tenho o mínimo de decência de dar para as pessoas algo que é meu, que eu comprei, que eu conquistei! É duro voltar à essência do que somos, mas sem isso a espera é estéril! É possível, no entanto, fazermos um caminho de retorno à pureza do ser, que é a nossa essência sem as misturas que fomos colocando ao longo do tempo, para tentar descaracterizar aquilo! Deixa “Ele te falar quem você é”!

Do ônibus para os altares

Quando falamos de espera, o que vem primeiro a sua cabeça? Casamento? Namoro? Exames? Resultados? Provas? A hora do almoço? O ônibus? Enfim, descobri que para tudo na vida vamos precisar esperar, desde o computador, que é uma baita carroça, à promessa de Deus para nossa vida inteirinha! Mas cada uma dessas esperas colaboram umas com as outras neste caminho; cada uma delas nos ensinam um pouquinho de como lidar com a outra!

Já teve dor de barriga? Eu espero que sim! Todo mundo sai melhor de uma dor de barriga, acredite em mim! Fazemos promessas durante aquelas horas de agonia que transformam a nossa vida. Quando estamos com dor de barriga e estamos chegando perto de um banheiro, parece que o banheiro vai ficando longe, que nunca vamos poder reinar tranquilamente, aliviando aquela dor, que não vai dar tempo, que vamos morrer no meio do caminho ou fazer o que não devia antes do tempo! Mas o banheiro está ali, criatura, a poucos passos de distância; e logo mais você vai poder ser uma pessoa livre outra vez! Depois, você vai enfrentar outras dificuldades, consequências da dor de barriga: incômodo abdominal, bambeza no corpo etc. Mas a dor passou, o banheiro que parecia tão longe chegou!

Já ficou na fila do mercado esperando chegar sua vez, e a “tia” do carrinho da frente parece que levou toda a parte de higiene pessoal do mercado para a casa dela? É angustiante, da vontade de ir embora do mercado! Mas ai de você se não chegar em casa com o pão, o queijo e o presunto que sua mãe pediu pra você ir comprar no mercado!

A espera, quando se tem o olho no objetivo final, por mais difícil que seja, é mais fácil do que se as escolhas fossem precipitadas! A fila do mercado, o ponto de ônibus me ensinam que para ter escolhas definitivas na minha vida eu preciso ter paciência, pois, com o tempo, tudo vai se encaixar!

O que não lhe contam sobre isso? Que tudo o que é bom exige esforço, que tudo o que vale a pena exige sacrifício, que tudo o que é promessa passa pelo crivo da prova! Ainda somos fracos para entender tudo isso, ainda é difícil entender e dar sentido aos sofrimentos próprios de cada etapa, ou porque não entendemos ou porque estamos desanimados o suficiente para buscar soluções para o que parece insolucionável!

O que quero dizer com tudo isso? Que tudo o que gera vida traz um pequeno momento de dor, já começando no nosso nascimento! Para nascer, dói em alguém; para morrer, às vezes também! Um traz a vida na terra, outro gera vida no céu! Esperar não é diferente, dói, é um parto, não é fácil, mas é possível!

Para finalizar: sabe outra coisa que não lhe contaram? Mesmo que ninguém tenha lhe ensinado isso, esperar por aquilo que é importante está na
nossa essência; afinal, vivemos uma vida inteira esperando o céu!

Por Pedro Pinheiro, via Canção Nova